
Se hoje perguntássemos a um cristão como ele descreve Deus, é bem provável que respondesse: “a Santíssima Trindade”. Mas será que essa definição sempre existiu? A resposta curta é não. E a história de como ela se tornou a crença dominante é mais fascinante do que muita gente imagina.
Meu objetivo aqui não é contestar a doutrina da Trindade, mas destacar que esse conceito se firmou após o período apostólico. Houve muito debate sobre a unidade de Deus e a divindade de Jesus Cristo, e afirmar com total certeza que a Trindade era compreendida da mesma maneira desde o início do ministério de Jesus é algo questionável.
O Que Ensina a Doutrina da Trindade?
Vamos começar com uma breve explicação: a Trindade ensina que existe uma única essência divina manifestada em três pessoas distintas, coeternas e coiguais — o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Em resumo, é um só Deus que se revela de três maneiras diferentes.

Muitas vezes, tenta-se explicar esse mistério com analogias — como a água, que pode ser líquida, gelo ou vapor, mas continua sendo H₂O. Porém, essas comparações acabam sempre falhando. Em vez disso, veremos como a clareza revelada a Joseph Smith traz uma compreensão que dispensa analogias complicadas, pois se apoia em um testemunho ocular.
O Concílio de Niceia
Embora muitos digam que a origem da Trindade esteja no Concílio de Niceia (325 d.C.), evidências mostram que já por volta do ano 100 havia registros de ensinamentos que indicavam crenças trinitárias. Em Niceia, o que aconteceu foi uma tentativa, incentivada por Constantino, de resolver disputas doutrinárias como o Arianismo, em que o presbítero Ário afirmava que Jesus Cristo, apesar de divino, não tinha a mesma substância do Pai e havia sido criado por Ele. Já o bispo Alexandre de Alexandria defendia que Cristo foi gerado, e não criado, sendo sempre Filho, assim como o Pai sempre foi Pai.

Essa disputa gerou muitas divisões. No concílio, decidiu-se por votação que a posição de Alexandre estava correta e a de Ário era herética. Como consequência, Ário e outros dois bispos que o apoiaram foram excomungados, e o Concílio proclamou o Credo Niceno de 325:
Cremos em um só Deus, Pai todo-poderoso, criador de todas as coisas visíveis e invisíveis. E em um só Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus, gerado unigênito do Pai, isto é, da substância do Pai; Deus de Deus, luz de luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não feito, consubstancial ao Pai; por quem foram feitas todas as coisas que estão no céu ou na terra. O qual por nós homens e para nossa salvação, desceu, se encarnou e se fez homem. Padeceu e ressuscitou ao terceiro dia e subiu aos céus. Ele virá para julgar os vivos e os mortos. E no Espírito Santo. (Aqueles que afirmam que o Filho foi criado, ou que Ele é de uma substância diferente do Pai, são anatematizados pela Igreja Católica.)
A Necessidade de uma Nova Luz
A pergunta é: o trinitarianismo não é bíblico? A questão é bem mais complexa. Não quero recorrer a um legalismo que valide ou invalide a crença na Trindade. Fica claro que, nos evangelhos e nas cartas do Novo Testamento, o entendimento sobre a divindade permite diversas interpretações.
Defendo que a visão trinitária é apenas mais uma interpretação que acabou se tornando a principal, talvez por influência teológica, política e pela força da argumentação. Se Ário tivesse tido mais influência, é provável que suas ideias fossem as predominantes hoje.
A consolidação de poder e doutrina no Concílio de Niceia é vista pelos santos dos últimos dias como um marco da Grande Apostasia — um tempo em que a autoridade do sacerdócio e a clareza doutrinária desapareceram da Terra. Sem profetas vivos para receber revelação, as pessoas passaram a depender de concílios e debates para definir quem é Deus.
Foi justamente essa mistura de credos que, séculos depois, levou um jovem chamado Joseph Smith a buscar uma resposta não em um concílio, mas diretamente na fonte.
A Natureza de Deus Revelada: A Primeira Visão
Na primavera de 1820, um menino chamado Joseph Smith, confuso sobre a qual igreja se unir, leu na Bíblia o conselho em Tiago 1:5 “E, se algum de vós tem falta de sabedoria, peça-a a Deus…”. Isso o motivou a orar e dessa experiência vem um dos relatos mais fascinantes da história moderna: Joseph teve uma visão de Deus, o Pai, e de Seu Filho, Jesus Cristo. Eles apareceram como dois personagens distintos, em forma humana. Disseram-lhe para não se unir a nenhuma das igrejas, pois os seus credos eram uma abominação aos olhos de Deus.

O que é notável nessa experiência é que ela traz uma perspectiva sobre a Deidade que não é compatível com o credo trinitário. Nesse contexto, entendemos que Deus, o Pai, e Jesus Cristo, o Filho, não são a mesma pessoa. Ambos possuem aparência humana, remetendo ao que foi relatado em Gênesis, onde Deus diz: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” (Gênesis 1:26). Talvez a conclusão seja que não é que Deus tenha aparência humana, mas que nós, humanos, temos a aparência de Deus.
A Deidade Segundo os Santos dos Últimos Dias
Mas o que significa “ser” Deus? Para os santos dos últimos dias, a resposta não está num mistério de substância, mas numa perfeita união de propósito. Entendemos a Deidade como uma Presidência Divina e o termo “Deus” de duas formas: como uma posição ou título e como um estado de existência glorificada.
Nesse sentido, Jesus Cristo sempre teve o título e a autoridade de “Deus”. Contudo, a revelação moderna esclarece que Jesus “não recebeu da plenitude no princípio, mas continuou de graça em graça, até receber a plenitude” (Doutrina e Convênios 93:13). Foi após a Sua Morte e Ressurreição que Ele alcançou a plenitude total da divindade, como Paulo testificou: “Porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade” (Colossenses 2:9).

E aqui reside uma das mais gloriosas verdades do evangelho restaurado: a jornada de Cristo é o modelo para a nossa própria jornada. A Sua progressão é o padrão para o nosso potencial eterno. Nós também existimos como espíritos antes desta vida, viemos à mortalidade para ganhar um corpo e experiência, e temos a oportunidade, através da Expiação de Cristo, de continuar a progredir após a morte. O apóstolo Paulo ensinou que podemos ser “co-herdeiros de Cristo”, e se com Ele padecemos, com Ele seremos glorificados (Romanos 8:17). O propósito final do Pai Celestial é que nos tornemos como Ele, uma verdade radicalmente expressa na promessa de que, quando Cristo se manifestar, “seremos semelhantes a ele” (1 João 3:2).
Esta compreensão é a base para a doutrina oficial da Igreja:
“Cremos em Deus, o Pai Eterno, e em Seu Filho, Jesus Cristo, e no Espírito Santo” (Regras de Fé 1:1). (…) cada membro da Deidade é um ser distinto. (…) O Pai e o Filho possuem um corpo tangível de carne e ossos (…) Embora sejam seres distintos, eles são um em propósito e doutrina.
Conclusão: Uma Fé Viva
Essas declarações, produto de revelação divina, desafiam o cristianismo estabelecido. O que me fascina é que o cristianismo, uma religião que surgiu de eventos divinos e inexplicáveis, hoje se apegue a legalismos para taxar como “não-cristão” quem clama por experiências divinas semelhantes.
Para mim, religião não é apenas viver como um bom cidadão, mas fazer tudo isso baseado no que é sobrenatural e divino. É crer em Deus sem intermediários. Afinal, Deus é vivo, e a fé n’Ele precisa ser viva também.
E você? Qual foi a sua experiência ao aprender sobre a natureza de Deus? A sua jornada de fé confirmou ou desafiou o que lhe foi ensinado? Partilhe a sua perspectiva nos comentários abaixo!
Referências: